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segunda-feira, 28 de março de 2011

A EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO




Uma lei, já o dissemos, rege a evolução do pensamento, assim como a evolução física dos seres e dos mundos; a compreensão do universo se desenvolve com o progresso do espírito humano.

Essa concepção geral do universo e da vida foi expressa de mil maneiras, sob mil formas diferentes no passado. Ela o é hoje, em termos mais amplos, e o será sempre, com mais amplitude, à medida que a humanidade escalar os degraus de sua ascensão.

A ciência vê alargar-se sem cessar o seu campo de exploração. Todos os dias, com a ajuda de seus poderosos instrumentos de observação e de análise, ela descobre novos aspectos da matéria, da força e da vida, mas o que ela constata o espírito já havia percebido há muito tempo, pois o vôo do pensamento está sempre adiante e supera os meios de ação da ciência positiva.

Os instrumentos não seriam nada sem a inteligência, sem a vontade que os dirige.

A ciência é incerta e mutável, renova-se sem cessar. Seus métodos, suas teorias e seus cálculos, edificados com bastante dificuldade, desabam diante de uma observação mais atenta ou uma indução mais profunda, para dar lugar a outras teorias que por sua vez não serão definitivas(6). A ciência nuclear, por exemplo, derrubou a teoria do átomo indivisível que, há dois mil anos, servia de base à física e à química. Quantas descobertas semelhantes demonstraram no passado a fraqueza do espírito científico! Este só chegará à realidade quando se elevar acima da miragem dos fatos materiais, rumo à região das causas e das leis.

Foi dessa maneira que a ciência pôde determinar os princípios imutáveis da lógica e da matemática. Não acontece o mesmo com os outros campos de pesquisa. O sábio, na maior parte das vezes, para ela leva os seus preconceitos, tendências e rotinas e todos os elementos de uma personalidade pouco desenvolvida, como podemos constatar no domínio dos estudos psíquicos, sobretudo na França, onde até agora foram encontrados poucos sábios corajosos e verdadeiramente esclarecidos para seguir uma estrada já amplamente trilhada pelas mais belas inteligências de outras nações.

Apesar de tudo, o espírito humano avança passo a passo no conhecimento do ser e do universo. Nossas informações sobre a força e a matéria se modificam a cada dia; a personalidade humana se revela sob aspectos inesperados. Em presença de tantos fenômenos experimentalmente constatados, em presença de testemunhos que se acumulam de todas as partes(7), nenhum espírito inteligente e perspicaz pode continuar a negar a realidade da sobrevivência do espírito; nada mais pode escapar às conseqüências morais e às responsabilidades que ela acarreta.

O que dizemos da ciência, poderíamos igualmente dizer da filosofia e das religiões que surgiram no decurso dos séculos.

Elas constituem outras tantas etapas ou trechos percorridos pela humanidade, ainda criança, elevando-se a planos espirituais cada vez mais vastos e ligados entre si. Em seu encadeamento, essas crenças diversas nos aparecem como o desenvolvimento gradual do ideal divino, refletido no pensamento, com tanto mais brilho e pureza quanto melhor e mais puro vai se tornando.

É essa a razão pela qual as crenças e o conhecimento de um tempo ou de um meio parecem ser, para o tempo ou o meio em que reinam, a representação da verdade como os homens dessa época podem alcançá-la e compreendê-la, até que o desenvolvimento de suas faculdades e de sua consciência os torne aptos a perceber uma forma mais elevada, uma radiação mais intensa dessa verdade.
 
Sob esse ponto de vista, o próprio fetichismo* se explica, apesar de seus ritos sangrentos. São as primeiras palavras da alma infantil, tentando soletrar a linguagem divina e fixando, em traços grosseiros, sob as formas apropriadas ao seu estado mental, sua concepção vaga, confusa, rudimentar, de um mundo superior.

O paganismo representa um conceito mais elevado, embora bastante antropomórfico**. Nele, os deuses são semelhantes aos homens; possuem todas as paixões, todas as fraquezas. Mas, agora, a noção do ideal se purifica com a do bem. Um raio da eterna beleza vem fecundar as civilizações no berço.

Mais acima vem a idéia cristã, repleta de sacrifício, de renúncia em sua essência. O paganismo grego era a religião da natureza radiosa; o Cristianismo é a da humanidade sofredora, religião das catacumbas, das criptas*** e dos túmulos, que teve seu início na perseguição e na dor, e guarda a marca de sua origem. Reação necessária contra a sensualidade pagã, se tornará, por seu próprio exagero, impotente para vencê-la, porque com o ceticismo**** a sensualidade renascerá.

O Cristianismo, em sua origem, deve ser considerado como o maior esforço tentado pelo mundo invisível para se comunicar ostensivamente com a nossa humanidade. É, segundo a expressão de F. Myers, “a primeira mensagem autêntica do além”. Já as religiões pagãs eram ricas em fenômenos ocultos de todos os gêneros e de adivinhações. Mas a ressurreição, ou seja, as aparições do Cristo materializado após sua morte, constitui a manifestação mais poderosa de que os homens têm sido testemunhas.

Ela foi o sinal da entrada em cena do mundo dos espíritos, que se produziu de mil maneiras nos primeiros tempos cristãos.

Dissemos, aliás, em outra obra(8), como e por que, pouco a pouco, o véu do além foi se abaixando e o silêncio se fez, salvo para alguns privilegiados: videntes, extáticos***** e profetas.
 
Assistimos hoje a um novo impulso do mundo invisível na História. As manifestações do além, de passageiras e isoladas, tendem a tornar-se permanentes e universais.

Um caminho se estabelece entre os dois mundos, a princípio simples pista, atalho estreito, mas que se alarga, melhora pouco a pouco até se tornar uma estrada larga e segura. O Cristianismo teve como ponto de partida fenômenos de natureza semelhante àqueles constatados em nossos dias no domínio das ciências psíquicas. É por meio desses fatos que se revelam a influência e a ação de um mundo espiritual, verdadeira morada e eterna pátria das almas.

Por eles, um imenso azul se abre sobre a vida infinita; a esperança vai renascer nos corações angustiados, e a humanidade irá se reconciliar com a morte.

*

As religiões têm contribuído de forma determinante para a educação humana; têm colocado um freio às paixões violentas, à barbárie das idades do ferro e gravado fortemente a noção moral no fundo da consciência.

A estética religiosa criou obras-primas em todos os domínios; participou de forma ativa na revelação da arte e da beleza que se manifestaram no decorrer dos séculos. A arte grega criou maravilhas. A arte cristã atingiu o sublime nas catedrais góticas, que se erguem, bíblias de pedra sob o céu, com suas notáveis torres esculpidas, suas naves imponentes, cheias de vibração da música dos órgãos e dos cânticos sagrados, suas altas ogivas, de onde a luz desce em ondas e se derrama pelos afrescos e estátuas; mas seu papel está se acabando, porque hoje ela repete a si mesma, ou descansa, exausta.

O erro religioso, principalmente o católico, não pertence à ordem estética, que não se engana: ele é de ordem lógica. Consiste em encerrar a religião em dogmas estreitos, em formas rígidas. Uma vez que o movimento constitui a própria lei da vida, o Catolicismo imobilizou o pensamento, em vez de provocar sua expansão.

Está na natureza do homem esgotar todas as formas de uma idéia, de ir até os extremos antes de retomar o curso inicial de sua evolução. Cada verdade religiosa, afirmada por um inovador, se enfraquece e se altera com o tempo, por serem os discípulos quase sempre incapazes de se manter à altura a que o Mestre os atraíra. A doutrina torna-se, desde esse momento, uma fonte de abusos e provoca, pouco a pouco, um movimento contrário, no sentido do ceticismo e da negação. Depois da fé cega vem a incredulidade; o materialismo faz sua obra, e somente quando ele mostra toda a sua impotência na ordem social é que uma renovação idealista se torna possível.

Desde os primeiros tempos do Cristianismo, correntes diversas – judaica, helênica*, gnóstica** – se misturam e se chocam no leito da religião nascente. Cismas vêm à luz; as rupturas e os conflitos se sucedem, no meio dos quais o pensamento do Cristo vai pouco a pouco se encobrindo e se obscurecendo.

Mostramos de quais alterações, de quais modificações sucessivas a doutrina cristã foi objeto no decorrer dos tempos(9). O verdadeiro Cristianismo foi uma lei de amor e liberdade; as Igrejas fizeram dele uma lei de temor e escravidão. Daí os pensadores se afastarem gradualmente da Igreja; daí o enfraquecimento do espírito religioso.

Por causa da perturbação que invadiu os espíritos e as consciências, o materialismo ganhou terreno. Sua moral, dita científica, que proclama a necessidade da luta pela vida, o desaparecimento dos fracos e a seleção dos fortes, reina hoje soberanamente na vida pública e na individual. Todas as atividades se voltam para a conquista do bem-estar e dos prazeres físicos. Por falta de preparação moral e de disciplina, a alma perde sua força; o mal-estar e a discórdia se espalham por toda parte, nas famílias, nas nações. É, dizíamos, um período de crise. Nada morre, apesar das aparências; tudo se transforma e se renova. A dúvida que persegue as almas em nossa época prepara o caminho para as convicções de amanhã, para a fé inteligente e esclarecida que reinará sobre o futuro e se estenderá a todos os povos, a todas as raças.

Embora ainda jovem e dividida pelas necessidades de território, de distância e de clima, a humanidade começou a tomar consciência de si mesma. Acima e fora das incompatibilidades políticas e religiosas, agrupamentos de inteligências se constituem.


Homens preocupados com os mesmos problemas, instigados pelos mesmos cuidados, inspirados pelo invisível, trabalham numa obra comum e perseguem as mesmas soluções.

Pouco a pouco os elementos de uma ciência psicológica e de uma crença universal aparecem, fortificam-se e aumentam. Um grande número de testemunhas imparciais vê nisso o início de um movimento do pensamento que tende a abranger todas as sociedades da Terra(10).

A idéia religiosa acaba de percorrer seu ciclo inferior, e os planos de uma espiritualidade mais alta vão se esboçando. Pode-se dizer que a religião é o esforço da humanidade para se comunicar com a essência eterna e divina. Eis por que sempre haverá religiões e cultos cada vez maiores e de acordo com as leis superiores da estética, que são a expressão da harmonia universal.

O belo, em suas regras mais elevadas, é uma lei divina, e suas manifestações, ligadas à idéia de Deus, revestirão forçosamente um caráter religioso.

À medida que o pensamento evolui, missionários de todas as ordens vêm provocar a renovação religiosa no seio da humanidade.

Assistimos ao começo de uma dessas renovações, bem maior e bem mais profunda que as anteriores. Já não tem somente homens por representantes e intérpretes, o que tornaria essa revelação tão precária quanto as outras. São os espíritos inspiradores, os gênios do espaço, que exercem ao mesmo tempo sua ação sobre toda a superfície do globo e em todos os domínios do pensamento. Sobre todos os pontos, aparece o Espiritismo.

E logo surge a pergunta: “O que é você? Ciência ou religião?

Espíritos de pouco alcance, vocês julgam que o pensamento deve seguir eternamente os caminhos abertos pelo passado? ”

Até aqui, todos os domínios intelectuais têm sido separados uns dos outros, cercados de barreiras, de muralhas, a ciência de um lado, a religião de outro; a filosofia e a metafísica* estão eriçadas de espinhos impenetráveis. Quando tudo é simples, vasto e profundo no domínio da alma como no do universo, o espírito de sistema tudo complica, diminui, divide. A religião foi emparedada no sombrio cárcere dos dogmas e dos mistérios; a ciência, aprisionada nas mais baixas camadas da matéria. Essa não é a verdadeira religião, nem a verdadeira ciência. Bastará elevar-se acima dessas classificações arbitrárias* para compreender que tudo se concilia e se reconcilia em uma visão mais alta.

Nos dias de hoje, nossa ciência, ainda que elementar, quando estuda o espaço e os mundos, não provoca imediatamente um sentimento de entusiasmo, de admiração quase religiosa?

Lede as obras dos grandes astrônomos, dos matemáticos de gênio. Eles vos dirão que o universo é um prodígio de sabedoria, de harmonia, de beleza e que, no conjunto dessas leis superiores, se realiza a união da ciência, da arte e da religião pela visão de Deus em sua obra. Chegado a essas alturas, o estudo torna-se uma meditação profunda e o pensamento se transforma em prece!

O Espiritismo vai acentuar, desenvolver essa tendência, darlhe um sentido mais claro e mais preciso. Pelo lado experimental, é apenas uma ciência; pelo objetivo de suas pesquisas, penetra nas regiões invisíveis e se eleva até as fontes eternas, de onde saem toda a força e vida. Dessa forma, une o homem ao poder divino e torna-se uma doutrina, uma filosofia religiosa. É, além disso, o laço que reúne duas humanidades. Por meio dele, os espíritos prisioneiros na carne e os que estão livres comunicam-se, estabelecendo uma verdadeira comunhão entre si.

Não se deve, portanto, ver nele uma religião no sentido restrito, no sentido atual dessa palavra. As religiões de nosso tempo querem dogma, padres e rituais, e a nova doutrina não os comporta.

Ela está aberta a todos os investigadores; o espírito de livre crítica, de exame e de verificação preside às suas investigações.

Os dogmas, os sacerdotes e os pastores são necessários, e ainda o serão por muito tempo às almas jovens e tímidas que penetram a cada dia no círculo da vida terrestre e não se podem reger no caminho do conhecimento nem analisar suas necessidades e sensações.

O Espiritismo dirige-se sobretudo às almas evoluídas, aos espíritos livres e emancipados, que querem encontrar por si mesmos a solução dos grandes problemas e a fórmula de seu credo. Ele lhes oferece uma concepção, uma interpretação das verdades e das leis universais, baseada na experimentação, na razão e no ensinamento dos espíritos. Acrescentai a isso a revelação dos deveres e das responsabilidades que, por si sós, dão uma base sólida ao nosso instinto de justiça. Depois, com a força moral, as satisfações do coração, a alegria de se reencontrar, pelo menos em pensamento, algumas vezes até com a forma(11), os seres amados que julgávamos perdidos. À prova de sua sobrevivência junta-se a certeza de reencontrá-los e de reviver com eles vidas inumeráveis, vidas de ascensão, de felicidade ou de progresso.

Assim, gradualmente, os problemas mais obscuros se esclarecem; o além se entreabre; o lado divino dos seres e das coisas se revela. Pela força desses ensinamentos, cedo ou tarde, a alma humana subirá e, nas alturas que atingir, verá que tudo se liga, que as diferentes teorias, contraditórias e hostis em aparência, são apenas aspectos diversos de um mesmo todo. As leis dos majestosos universos se resumirão, para ela, numa lei única, força ao mesmo tempo inteligente e consciente, modo de pensamento e de ação. E, por ela, todos os mundos, todos os seres se acharão ligados numa mesma unidade poderosa, associados numa mesma harmonia, arrastados para um mesmo objetivo.

Chegará o dia em que todos os pequenos sistemas, limitados e ultrapassados, se fundirão em uma vasta síntese, abrangendo todos os reinos da idéia. Ciência, filosofia, religião, hoje divididas, se reunirão na luz, e será então a vida, o esplendor do espírito, o reino do conhecimento.

Nesse acordo magnífico, as ciências fornecerão a precisão e o método na ordem dos fatos; as filosofias, o rigor de suas deduções lógicas; a poesia, a irradiação de suas luzes e a magia de suas cores. A religião acrescentará a tudo isso as qualidades do sentimento e a noção da estética elevada. Assim se realizará a beleza na força e na unidade do pensamento. A alma se orientará para os mais altos cimos, mantendo sempre o equilíbrio de relação necessário que deve regular a marcha paralela e ritmada da inteligência e da consciência, em sua ascensão à conquista do bem e da verdade.

Notas:

6 - O professor Charles Richet assim o reconhece: “A ciência nunca deixou de ser uma série de erros e aproximações, constantemente evoluindo para constantemente cair com rapidez tanto maior quanto mais elevado o seu grau de adiantamento” (Annales des Sciences Psychiques – Anais das Ciências Psíquicas, janeiro de 1905).

Nota do editor: o autor citou, na nota acima, Charles Richet (1850-1935), que foi um notável médico fisiologista francês (prêmio Nobel de 1913), que com sua inteligência prestou grande serviço à ciência.


7 - Ver a minha obra

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* Fetichismo: culto de objetos materiais, considerados como a encarnação de um espírito, ou em ligação com ele, e possuidores de poderes sobrenaturais (N.E.).

** Antropomórfico: que tem forma semelhante à do homem (N.E.).

*** Cripta: nesse caso, galeria subterrânea na qual se encontravam os cristãos perseguidos na época em que o Cristianismo era proibido (N.E.).

**** Ceticismo: descrença, estado de quem duvida de tudo (N.E.).

8 - Ver Cristianismo e Espiritismo, capítulo 5, Ed. FEB.

***** Extático: que entra em transe. É quando o espírito do médium alcança estados de extraordinária independência em relação ao corpo físico e penetra mundos desconhecidos, enquanto nos sonhos e no sonambulismo o espírito percorre o mundo terrestre. – Ver O Livro dos Espíritos, questão 455 (N.E.).

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* Helênico: relativo ou pertencente à Grécia antiga (N.E.).

** Gnóstico: que segue os ensinamentos da gnose (busca interior ou autoconhecimento), cujas origens estão nas antigas religiões orientais e nos filósofos gregos, especialmente em Sócrates e Platão (N.E.).

9 - Cristianismo e Espiritismo, primeira parte, Ed. FEB.
 
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10 - Sir O. Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, membro da Academia Real, vê nos estudos psíquicos o próximo advento de uma nova e mais livre religião (Anais das Ciências Psíquicas, dezembro de 1905). Ver também Maxwell, procurador-geral na Corte de Apelação de Paris (Les phenomènes psychiques – Os fenômenos psíquicos).

* Metafísica: segundo Aristóteles, estudo do ser como ser e sobre os princípios e causas primeiras do ser (N.E.).

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11 - Ver No invisível, “Aparições e materializações dos espíritos”, capítulo 20, Ed. FEB.No invisível, Ed. FEB.


Catedrais Góticas:



Catedral de Chartres, França.


Catedral de Notre-Dame, França.

Gótico: estilo caracterizado principalmente pelo uso de ogivas, ou seja, figuras formadas por dois arcos iguais que se cortam, formando um ângulo agudo, e que possibilitavam a construção de estruturas elevadas.

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